segunda-feira, 10 de maio de 2010

ANDREA VECCHIATO

VELHINHA_FLORBELA ESPANCA


Se os que me viram já cheia de graça

Olharem bem de frente em mim,

Talvez, cheios de dor, digam assim:

“Já ela é velha! Como o tempo passa!...”



Não sei rir e cantar por mais que faça!

Ó minhas mãos talhadas em marfim,

Deixem esse fio de oiro que esvoaça!

Deixem correr a vida até o fim!



Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!

Tenho cabelos brancos e sou crente...

Já murmuro orações... falo sozinha...



E o bando cor-de-rosa dos carinhos

Que tu me fazes, olho-os indulgente,

Como se fosse um bando de netinhos...

PIOR VELHICE_FLORBELA ESPANCA


Sou velha e triste. Nunca o alvorecer

Dum riso são andou na minha boca!

Gritando que me acudam, em voz rouca,

Eu, náufraga da Vida, ando a morrer!



A Vida, que ao nascer, enfeita e touca

De alvas rosas a fronte da mulher,

Na minha fronte mística de louca

Martírios só poisou a emurchecer!



E dizem que sou nova... A mocidade

Estará só, então, na nossa idade,

Ou está em nós e em nosso peito mora?!



Tenho a pior velhice, a que é mais triste,

Aquela onde nem sequer existe

Lembrança de ter sido nova... outrora...
 
*POEMA PUBLICADO EM LIVRO DE MÁGOAS

A MINHA DOR _FLORBELA ESPANCA


A você

A minha Dor é um convento ideal

Cheio de claustros, sombras, arcarias,

Aonde a pedra em convulsões sombrias

Tem linhas dum requinte escultural.



Os sinos têm dobres de agonias

Ao gemer, comovidos, o seu mal...

E todos têm sons de funeral

Ao bater horas, no correr dos dias...



A minha Dor é um convento. Há lírios

Dum roxo macerado de martírios,

Tão belos como nunca os viu alguém!



Nesse triste convento aonde eu moro,

Noites e dias rezo e grito e choro,

E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...